I CHING COMO ELE É

Mestre Wu Jhy Cherng

Mestre Wu Jhy Cherng

O I Ching é a matriz da civilização chinesa, raiz do taoísmo e do confucionismo. No ocidente, é conhecido enquanto oráculo e tratado de filosófico. Mas o Tratado das Mutações, como também é chamado, é a base de um vasto conhecimento que inclui matemática, alquimia, ciência, artes, medicina, meditação e cosmogonia.

Após lançar seu novo livro “I Ching, A Alquimia dos Números”, Mestre Wu Jyh Cherng fala sobre a real compreensão dos conceitos e conhecimentos do I Ching e questiona a mais popular tradução desse tratado no ocidente: “-Richard Wilhelm errou!”

(Entrevista a Oscar Maron, jornalista, professor e consultor de I Ching)

Como se iniciaram seus estudos de I Ching?

Cherng – Sempre ouvi meu pai (Dr. Wu Chao-Hsing, introdutor do Tai-Chi no Brasil) falar sobre a importância do I Ching: contém todos os segredos do taoísmo. Depois, quando eu comecei os estudos taoístas, especialmente meditação e práticas espirituais, verifiquei que os textos clássicos do taoísmo citam teorias, termos e conceitos do I Ching, como base de desenvolvimento. Assim o estudo do I Ching tornou-se inevitável e obrigatório. Logo o próprio oráculo, filosofia e matemática passaram a me interessar. Comecei a me aprofundar de forma auto-didata, depois fiz um curso em Taiwan, na Sociedade Chinesa de I Ching, ministrado pelo Presidente Li Kai Hsuang, adquiri muitas preciosas informações com meu mestre, Ma Ho Yang e depois o estudo passou a ser pessoal.

Através do I Ching podemos alcançar a “visão antecipada” dos sábios taoístas?

Cherng – Enxergar mais longe, mais amplamente, acontece de duas formas. A primeira é a vivencia da própria filosofia do I Ching. A compreensão profunda desta leitura e incorporação do aprendizado na vida faz com que a pessoa chegue ao ponto em que o ensinamento está tão assimilado que, diante de qualquer acontecimento, ela consegue encontrar dentro de si uma resposta direta. Nesse momento, o I Ching funciona na sua essência: a pessoa enxerga com a sabedoria do próprio oráculo. Mas essa sabedoria só é adquirida através de longo período de assimilação do ensinamento.
Caso não haja esse estudo, então você tem a segunda ferramenta, que é a própria consulta oracular. Somos a favor da incorporação do oráculo na vida cotidiana: a resposta contém uma análise muito clara da medida a ser tomada e possíveis acontecimentos, o que ajuda na assimilação de tudo que havia sido estudado teoricamente sobre I Ching. A incorporação do ensinamento puro através da consulta oracular faz com que você absorva a teoria dentro de você. Muitas vezes uma pessoa lê um I Ching com textos filosóficos e espirituais, mas não consegue incorporar este ensinamento no dia-a-dia porque não sabe como. Sabendo usar o I Ching, você recorre à consulta oracular a cada acontecimento que não pode ser resolvido com a lógica e bom senso. E, depois de repetidos exercícios e pratica oracular, é possível chegar ao ponto em que você nem precisa mais consultar: basta olhar para uma situação que a resposta já vem espontaneamente porque todo ensinamento já foi incorporado. Portanto, o oráculo não somente serve para responder e resolver uma situação do momento, como serve também de mecanismo de incorporação da sabedoria.

No Ocidente, muitas pessoas acham que o I Ching, como conjunto de conhecimento, se resume ao livro clássico “I Ching”?

Cherng – O I Ching é um complexo de conhecimentos, oferece tantas possibilidades de estudo como a física, química ou matemática. I Ching também é um vasto campo, um conjunto de estudos: inclui o clássico livro Chou I, que são escritos do Rei Wen, Duque de Chou e Confúcio, alem de grande quantidade de conhecimentos nas áreas astronômica, astrológica, ambiental, matemática, métodos de consulta, análise do Céu, estudos dos fenômenos, etc. E o livro conhecido no Ocidente é, na verdade, apenas uma versão de uma parte do I Ching. Embora importante, tem um enfoque mais social.
O I Ching é uma tradição, um ensinamento, um conjunto de conhecimentos. É como se existisse a matemática e um livro chamado “A Matemática”. O livro e a matemática em si não podem ser confundidos. O livro faz parte do universo da matemática, que inclui outras obras, é claro. Assim, existe o I Ching, e o livro “I Ching”. O livro faz parte do vasto conhecimento do I Ching.
Confúcio, embora um grande filósofo e educador, nunca deixou de estudar, sempre teve a humildade de aprender e sempre considerou o I Ching (não apenas o livro, do qual ele foi um dos autores) como um conjunto de ensinamentos. Diante da dimensão do I Ching, um oceano de conhecimentos, ele lamentava não ter mais tempo para ir fundo no resto de seus ensinamentos.
O I Ching, como conhecimentos macro, é taoísta. Mas, por ter a participação de Confúcio, é também visto como uma obra confucionista – essa distinção é papo acadêmico. Na tradição taoísta nada se cria, tudo se revela. Não existem grandes criadores de ensinamentos, existem sim as grandes revelações relacionadas com o passado infinito. O I Ching é uma grande revelação. Nada se cria, tudo se revela. O princípio do Universo está diante de nossos olhos, mas é preciso ter a capacidade de enxergar. Ao enxergar, não o inventamos, ele sempre esteve lá.

Por que há uma diferença radical entre o método de consulta oracular do I Ching aceito e divulgado no Ocidente, que é o método do livro do Richard Wilhelm, e o método ensinado no seu livro?

Cherng – Richard Wilhelm possui um grande mérito: foi pioneiro ao popularizar o I Ching no Ocidente no século XX; esse mérito ninguém pode tirar. Mas Wilhelm era um missionário ocidental na China numa época conturbada – havia uma guerra com o Ocidente. Diversos países da Europa Ocidental já haviam invadido e saqueado a China: Holanda, Inglaterra, França, Alemanha, Bélgica, além de EUA e Rússia. O ocidental era chamado de demônio ultra-mar. Isso não favoreceu a aproximação dele à essência da cultura chinesa, principalmente aos segredos do oráculo. De qualquer forma ele utilizou sua influência junto ao governo chinês e conseguiu uma indicação para estudar com um mestre de I Ching.
Só que a história real é diferente daquela que ele conta. O tal mestre, citado por Wilhelm como importantíssimo na época, para os estudiosos da arte taoísta e do I Ching, é desconhecido e ninguém sabe quem era. Não há referências a ele, além daquelas feitas por Wilhelm. Esse mestre o ajudou na compreensão da parte filosófica do I Ching, mas não passou a essência do oráculo. Sem tirar o mérito do trabalho, a verdade é que ele não teve acesso a todos os ensinamentos.
Também não era um bom tradutor do chinês. Os tradutores contemporâneos – americanos, britânicos, franceses – são melhores porque hoje o ocidental é bem-vindo, a China não tem mais ódio do Ocidente, existem menos barreiras culturais e o domínio da língua, dos dois lados, é melhor. Em conseqüência disso, as traduções contemporâneas são mais precisas, tanto no aspecto cultural e teor informativo como no uso da própria linguagem.
O trabalho do Wilhelm foi pioneiro, mas arcaico. Thomas Cleary (grande tradutor de clássicos taoístas e budistas), por exemplo, contestou a tradução do “Segredo da Flor de Ouro” do próprio Wilhelm. Retraduziu esse texto e ironicamente falou que Carl G. Jung (que comentou o texto traduzido por Wilhelm) desenvolveu parte do seu estudo de psicologia baseado no Wilhelm e, se Jung tivesse acesso à tradução correta do “Segredo da Flor de Ouro”, provavelmente vários conceitos que desenvolveu teriam sido diferentes. Indiretamente ele falou que o Dr. Jung desenvolveu uma teoria em cima do erro de tradução.
Os seguidores de Wilhelm o idolatram, mas ele era um tradutor mediano. Hoje na China existem jovens ocidentais com 15, 17 anos falando chinês fluentemente, que em breve estarão na área acadêmica com muita força. Wilhelm viveu numa época difícil.

Por que o mestre dele passou um método de interpretação oracular errado? O Wilhelm recomenda que um hexagrama com apenas uma linha móvel se transforme em outro, levando o leitor a ler a linha e mais o julgamento do primeiro e do segundo hexagrama – método que traz informações contraditórias, deturpa a resposta e leva ao engano.

Cherng – Esse mestre não passou a chave de interpretação. O mestre deve ter lido para ele o texto clássico e Wilhelm supôs o resto. O texto do I Ching é hermético, arcaico e erudito. Se você não teve acesso aos ensinamentos corretos, vai interpretar errado. Wilhelm errou! Não é uma versão diferente, foi ele quem traduziu errado. O chinês dele não era bom. É difícil admitir que centenas de milhares de pessoas passaram a vida estudando o texto errado. Não é um conceito diferente, é simplesmente erro de tradução. É duro de engolir esse fato, mas é pura verdade: basta ter acesso ao texto clássico e original e perceber a diferença. É melhor admitir isso e mudar de atitude perante o trabalho dele do que desenvolver uma tese, uma teoria, em cima dos erros do tradutor.

Esse livro com os fundamentos, história e origem do I Ching lançado agora vai ser complementado por um novo livro, em finalização, com a descrição minuciosa de cada um dos hexagramas e linhas. Por que você decidiu escrever esta nova tradução do texto clássico do I Ching?

Cherng – Fiquei insatisfeito com os livros disponíveis no mercado e decidi fazer minha própria tradução do texto clássico. O problema com as traduções mais antigas é uma clara opção pela interpretação. Os versos originais permitem interpretações em diferentes níveis, com muitos significados. Optar por uma linha interpretativa já na tradução significa sufocar ou eliminar outras possibilidades. Isso torna a tradução tendenciosa e incompleta. Achei que a tradução deveria ser mais próxima das palavras originais, mesmo que o significado não fique tão claro e explícito. Acrescentei explicações sobre as diferentes possibilidades de interpretação, o que permite ao estudante uma visão mais completa.

In Jornal Tao do Taoísmo – n.10
Publicação da Sociedade Taoista do Brasil

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